Era uma vez um pai e uma mãe que levavam sua filha para passeios em
livrarias desde muito pequena. Esse pai e essa mãe ficavam muito, mas
muito chateados como, em geral, os livros para crianças eram
maltratados nas livrarias de São Paulo. Ela com formação e experiência
como editora; ele, mais de 30 anos de trabalho na área de cultura.
Como esse casal sonhava em ter um negócio próprio, perguntaram a si
mesmos: por que não abrir uma livraria?
E começaram a procurar um espaço. Moravam na Vila Mariana, zona sul
da cidade, e sabiam que a região ansiava por uma livraria especializada
no público infantojuvenil. Muitas escolas no entorno e algumas ruas
ainda preservavam o ar de “bairro” de antigamente. Acharam um local
na rua França Pinto, de boa circulação, entre duas estações de metrô.
Foi ali, no número 97 que o sonho do casal começou a se concretizar.
Nascia, então, a Livraria Novesete.
As duas vagas para carro na entrada – em breve abrigará também um
espaço somente para o estacionamento de bicicletas – nos dão mais
alguns minutos para o grande primeiro deleite: uma vitrine de bom
gosto, com variedade na exposição de livros e brinquedos artesanais que
só colaboram para o convite. Entrar é, sim, dar de cara com um acervo
de embaralhar a vista. Mas o aconchego já acontece junto: com pufes
coloridos espalhados pelo chão, bonecos pendurados no teto e obras
acessíveis a qualquer altura. Conforme acontece a exploração, vamos
notando que uma primeira bancada reserva os lançamentos… depois
outras divisões vão se revelando aos nossos olhos: poesias, mitos e
lendas, quadrinhos, contos de fadas, culinária etc, mas também autores
“clássicos”
Seguimos o passeio visual avistando mesas de madeira num deque que
nos leva a uma escada e, por fim, a uma espécie de “quintal ideal” com
plantas e flores ao ar livre e um espaço coberto reservado para nem
mesmo a chuva impedir uma contação de histórias ou uma oficina de
artes, todos os sábados.
Do encontro com o imóvel para a inauguração, em 2007, foram quatro
anos de reforma e criação do projeto. “Aqui era uma casa,
coincidentemente era do pai de um amigo que veio na inauguração sem
nem saber que o pai havia morado aqui. E outras pessoas que moraram
aqui ainda vieram me contar como era a casa, que onde é o caixa era a
biblioteca, que no fundo era um quintal imenso com vários bichos,
pomar. Todo o mundo fala que a casa tem um astral bom, acho que ela
carrega mesmo algo especial”, conta Gislene Gambini que, após a morte
do marido, Jesus Vazquez, toca o empreendimento sozinha, mas na
companhia de funcionários também conscientes de que ali não é apenas
um local que vende livros. “Cuido para sejam pessoas que gostem de
ler, que não seja uma passagem de emprego”. E qual o diferencial que
buscavam, perguntei a ela. “Essa cara de loja de bairro, aconchegante,
que a decoração é toda pensada de uma forma diferenciada, sem peças
de plástico, sem sacola plástica, um conceito realmente completo, de
toda a empresa.”
Para criar o acervo, eles tiveram a colaboração de Beatriz Almeida
Prado, que foi responsável pela área infantojuvenil da Livraria da Vila e
já estava fora de lá na época que a NoveSete nascia. “Quando contamos
para Beatriz a ideia, ela veio ficar conosco. Também uma apaixonada
por livros, ficou meses criando o acervo e mais alguns meses depois da
inauguração, até completar um ano. Aprendemos muito com ela.”
E é bem mais do que oferecer algo de qualidade para ler. Há famílias
que carecem de saber lidar com o objeto livro, não têm experiência de
como se portar dentro de uma livraria. E não estou falando das crianças.
Não raro os pequenos danificam os livros, ou pela fase de
desenvolvimento, ou pela falta de educação mesmo. Muitos pais não se
importam e quando alguém da livraria orienta o manuseio, incomodam-
se. Por isso que é um trabalho cotidiano de aprendizado, de ambos os
lados.
Como a livraria cumpre um papel educador, também há serviços
diretamente com as escolas. Não apenas trabalho com sugestão e venda
de acervo e feiras de livros. “A gente atende as escolas que queiram
visitar a livraria, em um formato que pode ir além. Comecei a perceber
que as escolas vinham e as crianças ficavam soltas, correndo sem saber
o que fazer. Me dava uma angústia. Então criamos um formato que a
escola vem e é recebida por um educador que apresenta a livraria, fala
sobre os gêneros literários e também pode escolher uma oficina,
mediante um custo acertado previamente”, conta Gislene.
Bem, vida longa para a Livraria NoveSete. Como moradora da região, é
um privilégio. E dialoga com uma questão muito forte para mim neste
momento: a importância de exercer a escolha do que ler. Dois lugares
são apropriadíssimos para isso: a livraria e a biblioteca pública. Além da
leitura, visitar estes locais são experiências culturais e uma chance de se
encontrar com o inesperado, aquele livro que você não procurava mas
que estava ali à sua espera. Onde mais aprenderíamos isso?
Cristiane Rogerio, colunista da Revista Crescer e coordenadora do curso
de pós-graduação O livro para a Infância, da Casa Tombada/Faconnect
@acasatombada.com.br


