GATO QUE CANTAVA GALO, O
GATO QUE CANTAVA GALO, O
A humanidade, como se sabe, divide-se em quatro grandes grupos. As pessoas que gostam de cães, as pessoas que gostam de gatos, as pessoas que gostam de cães e gatos e as pessoas que não gostam nem de cães nem de gatos. O último grupo constitui, felizmente, uma minoria, ainda que, infelizmente, não-assimilável. Somando-se, em todo caso, os que gostam de cães e/ou de gatos, e que demonstram, assim, uma sensibilidade maior, mais profunda e abrangente, a humanidade ainda pode ter esperanças em si mesma. Quer dizer, em si mesma desde que devidamente humanizada pelo convívio com animais superiores, como os cães e os gatos. Há, porém, diferenças importantes. Os que preferem os gatos costumam achar os cães muito subservientes a esse animal tonto que é o homem, enquanto os que preferem os cães acreditam que os gatos não são tolerantes o bastante com o pobre bípede, não escondendo sua independência e ar de superioridade. Diferenças à parte, tanto cães quanto gatos não se furtam, felizmente, a tentar ao seu modo humanizar a humanidade, e é o que afinal importa. O trabalho, porém, não é fácil, como demonstram os muitos milênios pelos quais vêm tentando fazê-lo. Prova disso é sua presença na cultura humana desde sempre, por exemplo, na literatura: assim, o velho e muito fiel cão de Ulisses, Argos, é, como se sabe, um dos principais personagens da Odisséia.
Eis que O gato que cantava de galo, de Ricardo Filho (21 pp.), com ilustrações de Mariana Newlands e paginação de Vanessa Sawada, põe agora em cena outro pequeno grande herói de quatro patas peludas, o felino Alemão: "Mais livre que os outros gatos. Mais independente. Brincalhão. Mais tudo que os outros gatos". E, de certa forma, mais humano.
Para criá-lo, o texto de Ricardo Filho possui duas características principais. Em primeiro lugar, é construído por frases muito curtas, frases de uma só frase, separadas por ponto final, e em rápida sucessão, o que gera clareza e agilidade, e ainda permite que se evidenciam relações formais de tipo poético entre as palavras: "Fazia tremendo sucesso. As gatas o achavam gatíssimo". "Sobe e desce. Sobe e desce. No rastro. Os sete sentidos atentos". Em segundo lugar, o texto possui grande agudeza psicológica, narrando ao mesmo tempo, de modo igualmente convincente, o que Alemão está vivendo e o que está sentindo. E o que ele afinal vive - e sente - é uma pequena grande aventura, ao se perder numa casa vazia e não conseguir sair... Ou será que consegue? Mas, até lá, como fará para sobreviver? Gatos têm esperança? Pesadelos? Imaginação?
A arte de Mariana Newlands, por outro lado, merece um comentário à parte. Sutil e delicada, é ao mesmo de alta densidade estética, resultando no que parece uma mistura de desenho, colagem, aquarela e tapeçaria: arte de gente grande para gente pequena. Um livro, enfim, para agradar grandemente três quartos da humanidade.
| Editora | GLOBO |
| ISBN | 8525048295 |
| Autor(es) | FILHO, RICARDO |
| Edição | 1º Edição |
| Páginas | 21 páginas |
| Ano de Publicação | 2010 |
| Dimensões | 25.5 x 21 (Altura x Largura) |




